Foucault, a subjetividade como construção
As análises da
construção da subjetividade
Por subjetividade, a maioria das pessoas entende uma espécie
de “eu” estável, responsável pela identidade, algo profundo, pessoal,
intransferível, um pouco como Descartes definiu o sujeito pensante.
Afirma Foucault em Ditos
e escritos: "No curso de sua história, os homens não cansaram de se
construir a si mesmos, isto é, de deslocar continuamente sua subjetividade, de
se constituir através de uma série infinita e múltipla de subjetividades
diferentes e que não terão fim, e não nos colocarão jamais diante de algo que
seria o homem" (1994, vol. IV, p. 75). Foucault analisa a subjetividade
como uma construção relacionada a modos ou técnicas de si, provenientes de
certos fatores e mudanças culturais.
Instituições de normalização e exclusão produzem verdades que
servem como instrumento para a exclusão, a normalização, a dominação, a
disciplina, a vigilância, a punição. Para ajustar a população crescente aos
mecanismos de produção capitalista, surgiu um novo tipo de poder, um poder
relacional, produtor de uma anatomia política dos corpos. Seu resultado é o
indivíduo disciplinado, corrigido, examinado, vigiado, de modo tal que ele
possa exercer suas atividades com o mínimo de dispêndio de energia e o máximo de
eficácia. Seu corpo se torna uma máquina de produzir.
Esses procedimentos são ampliados e tornados ainda mais
eficazes por meio da biopolítica com seus mecanismos de regulação das
populações, tais como o controle de taxas de natalidade, políticas de saúde
pública, e outras práticas que transformam a sociedade como um todo em uma
eficiente máquina de produção.
Destacamos alguns pontos sobre a sexualidade, como sua
oposição a filósofos como Marcuse que defendem a libertação política da
sociedade de classes do regime capitalista por meio da liberação da sexualidade.
Mas para Foucault a sexualidade é vista por outro ângulo, o dos dispositivos de
saber/poder. A sexualidade é uma invenção médico-social, o essencial não é a
repressão pura e simples, isso devido à sexualidade ser constituída pela
“vontade de saber” que forjou uma nova subjetividade, uma nova modalidade de o
sujeito se relacionar consigo mesmo. Em História
da loucura e especialmente História
da sexualidade, Foucault analisa o surgimento e o uso de um novo saber
médico-científico sobre o sexo, alvo de confissão, do exame no falso
confinamento dos consultórios, do saber psiquiátrico e psicanalítico. As
verdades aí produzidas forjaram um novo tipo de "eu", mais recôndito,
determinante, centrado no que há de mais obscuro em seu si próprio, o sexo.
Esse discurso "promete ao mesmo tempo nosso sexo, o verdadeiro, e toda
essa verdade acerca de nós mesmos que está desperta nele (no sexo)", diz
Foucault em Dits et Écrits (1994,
vol. IV, p. 118). A
sexualidade é reportada à saúde, à medicina, alvo
principal dos relatos ao psiquiatra, ao psicanalista, ao psicólogo, ao
sexólogo, ao terapeuta.
As práticas induzidas e criadas por esse poder/saber sobre a
sexualidade não libertam nem acabam com a alienação, elas criam a subjetividade
sujeitada ao exame científico, à fala analítica dos consultórios do
psicanalista, à investigação dos desvios da norma da psiquiatria. Assim, em História
da sexualidade (vol. I, A vontade de
saber), Foucault propõe um novo modo de pensar o discurso da psicanálise,
que constituiria esse novo tipo de subjetividade, de um sujeito subjetivado por
práticas de si, uma técnica de si típica da modernidade. A confissão constitui
um sujeito sujeitado ao saber do outro que o analisa, que o conhece, pois que
mostra qual é a verdade do analisando. Ao por o sexo nesses discursos de
verdade do sujeito, a sociedade moderna deixa de lado o prazer e aposta no
saber, na ciência, na medicina, na terapia e nos jogos sutis que levam a dizer,
a falar, a nada esconder, a se expor. Portanto, produção de um tipo de verdade,
não só aceitável, mas desejável.
Esses saberes acerca de si acabaram por favorecer a tomada do
indivíduo pela sociedade disciplinar, como alguém passível de cura, com
inserção no diagnóstico, normalizável, pronto a responder de modo eficiente aos
sistemas, principalmente ao da produção.
O "sujeito de desejo" é uma invenção histórica. Em O Uso dos Prazeres, Foucault de certo
modo comprova essa crítica ao mostrar que em sociedades antigas, especificamente
a grega, os prazeres eram cultivados, apreciados pelos efeitos no cotidiano das
pessoas. Não passavam por nenhum tipo de crivo científico ou normalizador.
A história da sexualidade exigiu nova abordagem, a das longas
continuidades. O que levou muitos estudiosos de Foucault a entender que há uma
“terceira fase” em sua obra, isso devido a uma nova metodologia, a da longa
duração e não mais a das descontinuidades e nem a da genealogia.
Não acompanho essa interpretação, pois o próprio Foucault
considera que suas análises não se dividem fases diferentes, com diferentes
metodologias e, principalmente, que ele “superaria” “fases” anteriores. A
análise em longa duração se deve ao objeto de estudo, o cuidado de si, a
análise do sujeito moderno, um sujeito de desejo que precisa ser auscultado,
que confessa e examina sua sexualidade, que inventa a sexualidade, sendo ela um
dispositivo histórico, em tais estudos as formações discursivas da arqueologia
não se aplicam.
Ao lado das técnicas de comunicação e significação, de
produção e de dominação, em todas as sociedades há técnicas para agir sobre os
corpos, a alma, os pensamentos, as condutas, para apreciá-las, modificá-las. E
Foucault lança assim uma luz sobre um campo de estudo inteiramente novo. Ele
analisa as práticas de si dos gregos na época clássica como suscetíveis de
conduzir o indivíduo, pelo bom uso dos prazeres, a uma bela e compensadora
vida. Mais tarde, os estóicos propuseram cuidar de si, cuidar da alma, como
tarefa para toda a vida. Meditar, armar o sujeito de uma verdade sobre si
através da escuta de conselhos. Observe-se que não se trata para os estoicos de
chegar ao que o sujeito é mesmo, mas
refletir para que sua vida e aquele seu dia fosse proveitoso.
O poder pastoral requer análises de extensas continuidades e
não bruscas rupturas como ele fizera com relação às ciências humanas em As Palavras e as Coisas.
Ouçamos o que diz Foucault:
“Quando eu falo de
corte, não é por que estou fazendo disso um princípio de explicação; pelo
contrário, eu tento colocar o problema e tento dizer: tomemos a medida de todas
as diferenças, sem tentar escamoteá-las dizendo: ‘Houve continuidade’. Pelo
contrário, tomemos a medida de todas as diferenças, somemo-las, sem pôr um
preço nas diferenças existentes e procuremos saber o que se passou de uma
situação do discurso científico à outra. Mas tudo isso vale para os discursos
científicos e é somente com relação a eles que isso se dá. É específico da
história do discurso científico ter estas mutações bruscas. Por exemplo, para a
História da Sexualidade eu estou no momento olhando todos os textos da pastoral
cristã e da direção de consciência no cristianismo: eu lhes asseguro que, desde
São Bento, desde São Jerônimo, sobretudo desde os Padres gregos e os monges da
Síria e do Egito, até o século 17, há uma continuidade absolutamente
extraordinária, notável, com, é claro, tanto acelerações como desacelerações,
desestabilizações, como um todo vivo, mas quanto a rupturas, nenhuma. A ruptura
não é para mim uma noção fundamental, é, antes, um fato de constatação. Aliás,
eu notei que as pessoas que conhecem a literatura científica não ficaram nem um
pouco chocadas quando eu falei de ruptura. Um historiador da medicina não nega
este corte”. (Poder e Saber,
entrevista de 1977).
Foucault entende que tudo se dá na superfície histórica de
práticas criadas por necessidades humanas.
Sorriso do filósofo, como ele dizia, silencioso.
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