Freud e Foucault, da liberdade confiscada à liberdade conquistada (parte I)
Freud
e Foucault: da liberdade confiscada à liberdade construída
Inês Lacerda Araújo
Resumo:
Para Foucault a interpretação do sujeito moderno e a
constituição de uma subjetividade normalizada provêm da psiquiatria, que é
também o solo de Freud e da psicanálise. A produção de verdade acerca de si
resulta num tipo de subjetividade “medicalizada”. Os conceitos de instinto,
trauma, o papel da família, a psicanálise como prática da fala e da escuta, a
sexualidade infantil, desempenham funções na sociedade da normalização. Essa
terapêutica é vista como libertação (numa leitura de Freud) ou é técnica para
minimizar os efeitos do interdito. Porém esses objetivos não são alcançados, ao
contrário, eles favorecem a sociedade disciplinar. Daí a proposta de Foucault
da construção de atos livres de resistência ao dispositivo histórico de
sexualidade. Somos mais livres do que suspeitamos, podemos modificar o que
temos feito com a pessoa humana, com autonomia e criatividade, o que é um
exercício de liberdade.
Abstract:
Foucault
says that the interpretation of the modern subject and the constitution of a
“normalized” subjectivity, come from psychiatry that is also the soil of
psychoanalysis and Freud. The obligation to say the truth about our inner self
results in a kind of “medicalized” subjectivity. The concepts of instinct,
trauma, the role of the family, psychoanalysis as a practice of hearing and
talking, childhood sexuality, all have consequences for the society of
normalization. This is considered as providing liberation (in a certain reading
of Freud) or as technique to minimize the effects of interdiction. But those
aims never succeeded, on the contrary, they sustain the disciplined society.
That is why Foucault proposes the construction of free acts of resistance to
the historical device of sexuality. We are much freer than we suspect, we can
modify this relationship with the human person through autonomy, creativity,
practices of freedom.
A presença de Freud na obra de
Foucault é desafiadora e significativa. O modo como ele aborda Freud e a
psicanálise ao longo de sua trajetória intelectual, provoca controvérsias e por
vezes incompreensão. Neste trabalho analisamos os conceitos freudianos, o modo
como Foucault os vê pela perspectiva da interpretação do sujeito moderno
segundo a qual há um saber que o constitui, e também sob a perspectiva da
“medicalização”, resultado do dispositivo histórico de sexualidade. A primeira
linha de argumentação encontra-se em Histoire
de la Folie à l'Âge Classique (HF) e, principalmente em Les Mots et les Choses (MC). A segunda linha está presente
também em HF, passa pelos cursos Le Pouvoir Psychiatrique (PP), Les
Anormaux (LA), e desemboca nas
reflexões densas e maduras do 1° volume de Histoire
de la Sexualité (La Volonté de Savoir)
(VS). Não há contradição entre essas
duas abordagens, ambas pressupõem que a contribuição de Freud se liga a uma
terapêutica e à noção de que há um psiquismo que nos constitui. O Foucault
arqueólogo do saber em MC mostra como a psicanálise freudiana se
configura em nosso espaço epistemológico como crítica das ciências humanas e
das filosofias do sujeito, o que não conflita com a psicanálise como uma das
práticas e/ou políticas de verdade, que remontam à confissão e culminam na
escuta terapêutica.
Foucault contrapõe a esse modelo,
uma subjetividade em que é possível aceder a atos de liberdade, cujo fundo é
ético/estético. Quer dizer, um novo modo de sermos pessoas humanas, e resistir
à sociedade onde imperam a disciplinarização dos corpos, o biopoder e uma
relação de si para consigo que depende inteiramente de procedimentos
médico-analíticos. As pessoas serão mais livres na medida em que esses tipos de
controle da sociedade moderna possam ser modificados.
- A psicanálise no prisma da arqueologia do saber.
O inconsciente estrutura-se como forma,
signo, marca, é a armadura do psiquismo. Segundo Freud "todas as
representações latentes que tenhamos motivos para supor que existam na dimensão
psíquica – como era o caso da memória – serão denominadas 'inconscientes'. Uma
representação inconsciente é, portanto, aquela que não percebemos, mas cuja
existência admitimos, com base em outros indícios e evidências" (2004, p.
83). Devido a seu caráter dinâmico, o inconsciente “contém” idéias das quais
nada sabemos, que podem permanecer ignoradas ou podem ir para a consciência,
conforme haja ou não resistência. Os sonhos, as neuroses e a loucura têm seu
lugar no inconsciente, e a interpretação dos sonhos é um dos resultados mais
importantes da psicanálise.
O desejo, a morte e a lei são
inelutáveis, conduzem a técnicas de interpretação que têm um caráter
"perturbador", segundo Foucault. Nós nos interpretamos através de
certas técnicas de representação, que o próprio Foucault usa para ir a Freud.
Há interpretação "non seulement
dans la fameuse topologie de la Conscience et de l’Inconscient, mais également
dans les règles qu’il a formulées pour l’attention psychanalytique, et le
déchiffrement par l’analyste de ce qui se dit tout au cours de la ‘chaîne’ parlée”
(1994 a, p. 569). A tarefa da interpretação é inacabada, infinita. Todo signo
remete a outros, surgem os sintomas, fantasmas que angustiam.
A etnologia e a linguística
pertencem à mesma formação discursiva da psicanálise, o material delas também é
o inconsciente. Freud está no centro de uma modificação conceitual pela qual
função, conflito e significação, se tornam norma, regras e sistema. Já não vale
o modelo representacional que vigorou até meados do século XVIII. A figura do
homem surge nas formas finitas da vida, trabalho e linguagem, que dão acesso a ele
e constituem o saber acerca dele. Ao contrário das ciências humanas a
psicanálise e a etnologia não pretendem explicitar a representação, mas trazer
à tona o fato de que
la psychanalyse va vers le moment – inaccessible par définition a toute
conaissance théorique de l'homme, à toute saisie continue en termes de
significations, de conflit et de fonction – ou les contenus de la conscience
s’articulent ou plutôt, restent béants sur la finitude de l’homme(1966, p.
385-6).
A psicanálise expõe o fato de haver
lei, desejo, formas finitas para pensar o homem como par
empírico/transcendental. A morte experimentada empiricamente é condição
transcendental para o saber; o impensado se revela como desejo e a linguagem é
objeto da escuta. Lei, desejo e morte não são simples objeto de ciência, são
constitutivos de nossas formas de existência.
A psicanálise é uma prática, não
uma ciência, que estabelece o contato com a morte presente no sofrimento, com o
desejo diante do que é paradoxalmente ausente. Ausência, perda, decifração, análise,
dissolvem o sujeito. No momento em que a linguagem é questão, o homem se
dissolve como questão. O não dito, as formas culturais e a linguagem denunciam
como ilusão o sujeito como consciência soberana de si. Por isso a crítica às
filosofias do sujeito demanda interpretação infindável.
Outros filósofos, aproximadamente
na mesma época, pensaram também no desconhecido, no irracional. O interessante,
segundo Foucault, é que o destino desses conceitos foi diferente na
psicanálise. Esta o prestigiou muito mais do que a etnologia e a lingüística.
Talvez devido ao uso que teve no dispositivo de sexualidade. Mas essa já é uma
outra perspectiva, que requer outro tipo de análise, não a do arqueólogo do
saber uma vez que este analisa as práticas discursivas, seu surgimento e
efeitos, sem perguntar pela cientificidade ou pelo paradigma que está sendo
usado. Essa tarefa cabe ao historiador da ciência ou ao epistemólogo.
Foucault se interessa pela
formação discursiva em que a psicanálise freudiana se constituiu. Ao
responder a uma questão posta por J.-A. Miller acerca dos efeitos da
psicanálise, Foucault mostra a diferença radical entre o Freud de A
interpretação dos sonhos, com toda a lógica do Inconsciente, e o Freud de Três
ensaios sobre a sexualidade. A lógica do inconsciente na primeira obra é
vista como “le fort dans la psychanalyse” (1994c, p. 315) e na segunda obra, a
sexualidade é a questão preponderante.
Do ponto de vista do genealogista,
a prática psicanalítica tem raízes na medicina, especialmente na psiquiatria, o
que fica evidente já em História da Loucura (HF).
2. A psicanálise no dispositivo de
sexualidade.
As concepções freudianas de pulsão,
instinto, recalque, castração reportam-se todas ao componente da sexualidade.
Enquanto Freud vê neles algo constitutivo do psiquismo humano, absolutamente
inelutável e condição universal da espécie humana, Foucault vê um dispositivo
histórico, cultural, que produz um tipo de saber com papel estratégico nas
práticas de si. Desde o século IV, devido a modificações no cristianismo,
aparece a necessidade de produzir verdade acerca de si a partir do “interior”
de cada um. O resultado é a criação de uma subjetividade ligada ao exame de sua
vida, de sua conduta, que chega até nós. Diz Foucault: “en envisageant la psychanalyse comme phénomène
culturel qui a eu une réelle importance dans le monde occidental, nous
pourrions dire que, comme pratique, envisagée comme un tout, la psychanalyse a
joué un rôle dans le sens de la normalisation” (1994 b, p. 641).
Para Freud, há a tendência em
apegar-se ao princípio de prazer, ao qual o princípio de realidade impõe uma
nova economia, mas deixa certa atividade livre para o devaneio, a fantasia. Aos
poucos as pulsões do Eu desprendem as pulsões sexuais, primeiro as auto-eróticas,
depois no período de latência, a busca de objeto, que libera energia sexual, a
libido. Esta pode fixar-se no auto-erotismo que não demanda esforço e nem
adiamento. Justamente aí, o recalque pode “inibir representações em statu
nascendi, caso a carga nelas investida possa dar margem a liberações de
desprazer, e o faz antes que essas representações sejam notadas pela
consciência” (FREUD, 2004, p. 68). As neuroses decorrem de o princípio do
prazer submeter processos psíquicos filtrados pelo princípio de realidade, ou
seja, pela racionalidade. A pulsão sexual “demora” para levar em conta a
realidade, ao mesmo tempo em que ignora o que provoca esse atraso.
A luta entre o princípio do prazer
e o de realidade, além da noção de pulsão e de energia sexual, mostram que o discurso
freudiano tem caráter marcadamente biologizante. O indivíduo tem o que Freud
chamou uma
dupla existência: uma que
persegue seus próprios fins e outra que é um elo de uma corrente, à qual serve
involuntariamente, e, às vezes, até contra sua vontade. Ele imagina que a
sexualidade seja uma de suas metas pessoais, mas, de outro ponto de vista,
podemos considerar o indivíduo como apenas um apêndice de seu próprio plasma
germinal, plasma a cuja disposição ele coloca suas energias em troca de um
prêmio de prazer [...] nossas concepções psicológicas são provisórias e deverão
um dia poder se calcar sobre substratos orgânicos” (2004, p. 101).
A energia sexual é como que o veículo
de uma propriedade herdada de um pai primordial. Mas, diz Freud, essas são especulações,
e, ao invés de esperar que uma ciência resolva esses problemas e enigmas da
biologia, ele se volta para os fenômenos psicológicos e suas manifestações, a
principal delas, a neurose, produzida pela tensão entre as pulsões do Eu e as
pulsões sexuais. A pulsão (Trieb) tem por meta a satisfação e por
destino o recalque. Os demais conceitos como o de narcisismo, a renúncia a ele,
de escolha do objeto que produz tipos (mulher nutriz, homem provedor), o modo
como o recalque se torna patogênico, o ideal do Eu e o Eu ideal, a sublimação,
a castração na sexualidade infantil, formam o núcleo rígido da concepção
freudiana de psiquismo. Freud chega a esses conceitos pela “experiência
clínica”. A “prática psicanalítica” evidencia a correlação entre recalque e inconsciente.
A força para repelir algo desagradável para fora do consciente (recalque) é
proporcional ao desprazer. Esse mecanismo de defesa, em sua manifestação
original (recalque original) interdita a passagem do representante da pulsão à
sua representação mental, à sua consciência. Ainda assim o representante
continua agindo no inconsciente, dando lugar a novas representações que virão
ou não à tona. Isso tudo funciona como um maquinário hidráulico de bombeamento,
equilíbrio, saturação, limiar, enchimento e esvaziamento, a fim de que o Eu não
desperdice energia, para equilibrar prazer e desprazer. Sonhos, medos,
angústias, neuroses são a prova clínica destas estruturas.
Foucault analisa esses conceitos
psicanalíticos freudianos com base na sua proveniência histórica e na função
que desempenham na sociedade da norma e do controle e na constituição de nosso
eu. Em HF, PP, LA e VS ele sustenta que de modo
geral, a psicanálise se afasta da psiquiatria, principalmente com relação à
prática do internamento, ao fato de não haver condenação moral e pela crítica à
teoria da degenerescência. A psicanálise não “patologiza” a loucura e nem dá a
ela “tratamento” corretivo, afirma Foucault. Mas pela perspectiva
arqueogenalógica, como historiador da cultura, ele mostra que, embora haja conceitos
e práticas que “despsiquiatrizam” a psicanálise, o corte entre ambas não é
total e radical. É dentro da própria psiquiatria que os conceitos freudianos de
inconsciente, de sexualidade infantil, trauma, complexo de Édipo, princípio de
realidade e princípio de prazer serão constituídos.
A partir dos cursos PP e LA,
Foucault critica as análises que tomam por base as noções de repressão e
recalque. Seu pressuposto é o de que há um poder que produz saber, permite a governabilidade
e disciplina os indivíduos. A própria sexualidade é um dispositivo histórico,
como mostra em VS.
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